Garoto do Interior

“Nós não somos daqueles que desistem”, sempre lembrava minha mãe.
Após sua partida, descobrimos que ela havia preparado e organizado muitas coisas. Deixado recado e dicas através de outras pessoas para resolver algumas questões. De alguma maneira ela esperava pela morte sem grandes preocupações. Apesar de nova, de todo o processo de quimioterapia, indas e vindas ao hospital, internações e momentos de muita dor, ela constantemente estava sorrindo.
Tenho algumas dividas com ela. Algumas coisas que gostaria de ter falado e reafirmado. A idade avança e parece que a gente passa pela transição de filhos para pais ao longo da vida. Mesmo sem um filho biológico ou adotado. Então hoje consigo reconhecer algumas de suas atitudes que na época não entendia direito, mas que desembocaram em exemplos perfeitos a serem seguidos.
Já estive em rota de colisão com a vida em vários momentos. Algumas vezes, admito, por vontade própria. E não se trata de pensamentos suicidas, nesse caso. Mas um tipo de auto degradação, melindre e um certo desespero que gerava uma necessidade de sentir dor para se sentir vivo. Apesar de períodos angustiantes, minha relação com a dor nunca mais foi a mesma. Como disse certa vez C.S. Lewis “Tente excluir a possibilidade de sofrimento implicada pela ordem da natureza e pela existência do livre arbítrio, e você descobrirá que exclui a própria vida”.
Uma das coisas que a rotina de escrever me ensinou é que tudo, em especial as pessoas a nossa volta, contam histórias incríveis. Os anseios e incômodos que elas sentem podem parecer, numa primeira analise, fúteis e temporários. Mas em sua esmagadora maioria são pequenos frutos de raízes plantadas ha muito tempo.
“Smalltown Boy” é uma musica dos ingleses Bronski Beat que foi lançada no ano em que nasci. Parte da letra diz o seguinte:
“Você parte pela manhã com tudo que te pertence dentro de uma pequena valise preta. Sozinho na plataforma o vento e a chuva castigam seu rosto triste e solitário. Sua mãe nunca irá entender porque você teve que partir. Mas as respostas que procura você nunca encontrará em casa”.
É fato, as respostas que procuro não encontrei em casa. Mas ao mesmo tempo, não houve lugar que mais produzisse bons questionamentos quanto o ambiente familiar. Em casa. O lar. Não que minha família fosse perfeita. Definitivamente não. Acho que muito pelo contrário. Na tensão da relação alguns mecanismos de buscas foram sendo aprimorados. E ao romper os vínculos e sair de casa, paradoxalmente, nossos laços se firmaram como nunca antes. Você só sabe que é perigoso atravessar a rua sem olhar para os lados quando você sai da redoma e atravessa para o outro lado e observa a casa do lado de fora.
Minha fé hoje já não é a dos meus pais. É inteiramente minha. Ela tem sido testada e, por graça, aprovada dia após dia. Assim como a grande maioria das minhas contas para pagar. Meu pai deixou de ser super herói e se tornou amigo. Super herói é pra tempos difíceis. Amigo é pra tudo, pra todos e pra sempre.
A vida dói. E dor nos lembra que estamos vivos. E é sempre bom lembrar que “nós não somos daqueles que desistem”.
Espero, como minha mãe, viver intensamente a vida esperando despreocupadamente a morte, como uma grande extensão do viver.

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