A Caminhada

Quase 10 km depois parou de caminhar. Exaurido. Olhou para os lados e via casas simples, cercados de madeira e roupas estendidas no varal. Cruzara a fronteira da área rural da cidade e nem percebera. Seus olhos estavam totalmente focados em si. Ouvira de uma amiga certa vez; “sua alma parece estar em coma enquanto seu corpo caminha por ai”.
Ano passado fora visitar o mar. Ficara horas a fio observando as rajadas de vento e o sussurro surdo do vai e vem das ondas. Voltou-se assustado quando ouviu uma criança perto questionar sua progenitora; “bem que você disse que o mar ela lindo, mãe. Ele termina aqui na areia, mas onde começa? Não consigo ver”. Ficara refletindo sobre a frase “termina aqui. Mas onde começa?”.
Tinha medo de admitir, mas sabia que em muitos momentos nos últimos meses pensara sobre terminar-se. Pelo menos chegaria, enfim, as bordas de si mesmo. Ao limites de sua humanidade. O que não lhe permitiu persistir no pensamento foi exatamente o questionamento “mas onde comecei”?

Engajara-se numa luta pelas primeiras lembranças da infância. Confundia memória com as histórias que fluíam frequentemente de sua mente. Poucas respostas e cada vez mais perguntas.
Logo a frente, uma lanchonete daquelas de beira de estrada junto de uma borracharia, parecia convida-lo para um café. Entrou e sentou no balcão. Não havia atendente, mas podia ouvir barulhos vindo da pequena cozinha. Uma senhora de meia idade atravessa a porta.
– Pois não?
– Tem café fresco?
– Sim senhor.
– Uma xícara grande, por favor.
Olhou ao redor a aconchegante espelunca sem reparar em muitos detalhes. Ainda absorto nos próprios pensamentos.
Lembrou-se de uma conversa com o pai um pouco antes de sua morte. As palavras tinham um tom de sabedoria ao fim da vida.
“Você é único e especial, pois é meu filho. Mas pertence a si mesmo. Haverá momentos em que não poderei mais te proteger. E em pouco tempo não estarei mais aqui. Mas não se esqueça, também. Você é igual a todos a sua volta. Nem melhor, nem pior. O que te faz especial é justamente ser igual a todos, mas não ser nem viver a vida dos outros. Viva integra e integralmente sua vida. A você cabe o peso e a responsabilidade de ser você mesmo”.
Pensou consigo mesmo; “acho que, por mais que não percebesse a época, meu pai sabia exatamente o filho que tinha. Ao invés de me colocar na redoma, me empurrou de cima da arvore para aprender a voar”.
Pagou a conta e voltou um pouco mais animado para casa. Se pegou pensando que, enquanto remoía certezas, a agonia parecia uma corda o seu pescoço. Mas  nessa manhã voltava para casa cheio de perguntas. Eram conversas que teria com sua esposa e conselhos que daria a seu filho, em quem se enxergava no fundo dos olhos.
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s