Lembrar é Resistir

Estava na FLIP 2014, num fórum extremamente aguardado por mim. “Memórias do cárcere: 50 anos do golpe”, com Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva e Persio Arida. Feito as apresentações pela mediadora, a antropóloga social Lilia Schwarcz, Marcelo Rubens Paiva começou a ler um trecho de um texto falando sobre seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, desaparecido durante a ditadura militar no Brasil e que teve sua morte confirmada recentemente após depoimentos à Comissão Nacional da Verdade de ex-militares envolvidos no caso.
Na minha frente, uma senhora na casa dos 50 anos anos chorava copiosamente já nas primeiras palavras de Marcelo, que ao longo da leitura também precisou parar algumas vezes para conter a emoção. Como adendo, disse que seu filho tinha 5 meses de idade e por isso olhava com outros olhos para aquela história. Sob os olhos de pai, julgo eu.
Pelo que percebi de conversas da mulher, ela havia perdido parentes para a ditadura. Um dos tantos indigentes em valas comuns ou retalhados e lançados ao mar como se fossem isca de peixe.
Confesso que tive grandes dificuldades em segurar as lágrimas no rosto vendo e ouvindo tudo aquilo. O depoimento, principalmente do Marcelo Rubens Paiva, e as ferrenhas críticas feitas, em especial, pelo Bernardo Kucinski, me deram um choque de realidade muito forte.
Há mais de dois anos venho pesquisando, a título de conhecimento, sobre esse período de nossa história recente, sempre me perguntando do porque ele parecer tão distante sendo que eu poderia sentar com meu pai para conversar a respeito. A ditadura militar acabou, ou se metamorfoseou como aponta Kucinski, em 1985 quando eu tinha um ano de idade.
Eu queria conversar com a mulher ao fim do debate, mas senti que aquele momento era importante demais para ela para eu enche-la de perguntas a fim de sanar algumas curiosidades.
A questão é que, especialmente esse ano, tenho aprendido muito sobre a importância da história, de lembrar, relembrar e, em certos casos, reviver algumas situações a fim de não perder a realidade de vista.
Algo que foi citado, que eu realmente nunca havia parado para pensar, é sobre a brutalidade do desaparecimento. As famílias dos desaparecidos políticos foram interrompidas, nunca finalizadas. Ou seja, eles não passaram pelo importante processo luto, que dói mas cura. Marcelo até comenta “é por isso, que quase 50 anos depois, estou aqui chorando na frente de todos vocês”.
Pense nisso, por exemplo, na família do Amarildo, na esposa que tinha problemas com álcool e drogas, que chegou a deixar os filhos e desaparecer por uns dias. Se a estrutura familiar era escassa, ficou dilacerada. Essa me parece, muitas vezes, uma analogia da sociedade brasileira que vive plenamente a “vida líquida” em todas as áreas, sem bases concretas, sem conhecimento e sem estrutura emocional saudável. As redes sociais estão ai para provar, mesmo que empiricamente, essa observação.
Amarildo e tantos outros estão no limbo. E nós, muitas vezes, vivemos como os “interrompidos, não finalizados”. A metamorfose da ditadura no Brasil está diretamente ligada ao nosso cotidiano.
Que possamos aprender e se dispor a lembrança, enterrar os mortos e viver o tempo presente, rumando para o futuro, com os pés descalços sobre o chão firme.

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