Partida

Tive de seguir viagem no pensamento. Não aguentava mais uma palavra se quer. Ela contava a respeito de si cheia de histórias, mas de vazio desconcertante. Nem conto de fadas parecia tão irreal.
Não lembro detalhes daquela noite. Os primeiros dias de Fevereiro de 86. Sei que garoava. Alguns amigos haviam me convidado para sair, mas eu tinha algumas questões para resolver. Desci a ruazinha paralela a sua casa e esperei. Estava cinco minutos adiantado. Me recostei sob a árvore do outro lado da rua, no escuro, para não chamar atenção.
Ela apareceu. Estava animada. Parecia uma criança com um brinquedo novo. Segui no mesmo ritmo, afim de tentar aliviar a tensão do que imaginava ser a conversa.
O tempo passava e parecíamos estar numa conversa de ponto de ônibus. Divaguei para longe. Não lembro de quase nada. Talvez não quisesse prestar atenção. Achei que haveria alguma coisa de “nós” naquela conversa. Mas era só ela.
A volta da garoa me fez despertar do limbo. Percebi pressa na leitura do corpo. Instantaneamente disse; “É isso. Eu só queria te ver”. E assim, foi.
No outro dia a casa já estava vazia. A porta aberta revelava a falta de móveis e um senhor desconhecido varria um dos cômodos. Tinha ido. Sem um contato. Sem um endereço. Sem um abraço.
Queria me ver para nunca mais ver.

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