O Discurso

Sentia-se afogando em palavras não ditas. Tinha um discurso preparado e sabia exatamente quem era alvo. Era tudo tão eloquente e com uma força passional que o consumia e fazia arder seu coração. Dormia com as palavras revirando sua mente, acordava com as mesmas na ponta da língua.
A história era verdadeira. Havia um crime. Uma vítima. Um criminoso. Estava tudo as claras. Mas o assassino simplesmente lidava como se nada tivesse acontecido. Caminhava sempre ao seu lado.
As pessoas ao redor passavam pelo corpo morto como se ele não estivesse lá. Ainda respirava. Suspirava ajuda. Mas ninguém entendia. Ofereciam-lhe moedas como se fosse mendigo, mas não entendiam que tinha sido abandonado ali. Um saco de pele cheio de ossos.
E no tempo que se estendia ali no chão preparara todo o discurso contra ele. Contra a humanidade. Mas percebeu-se no gosto de fel que suas palavras tinham, por verdadeiras que fossem, pura vingança. Era sanguinária. E não poupava as raras mãos que se lhe estenderam em ajuda, mesmo que nem reconhecesse seus rostos.
Percebeu que o frio o conservava vivo. A chuva lavara as feridas. O vento lhe mantinha acordado e lhe trazia uma tênue mensagem na voz dos rouxinóis; “a vingança é minha e não sua. A mim lhe cabe a sua vida, por oferta. A você cabe se levantar. Renasce comigo”.
O tempo lhe trazia humanidade aos olhos.
Entre sonho e alucinação, viu um negro braço estendido. Não lhe ofertava nada. Tinha a mão aberta em ajuda; “é melhor se levantar. Vomite no esgoto. Hoje, o rabecão não é para seu corpo. Seu coração ainda não parou”.

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