A Velha Casa

Eram 21 degraus. Conhecia perfeitamente suas imperfeições. Mesmo na total falta de iluminação eu sabia exatamente onde pisar, muitas vezes correndo sem menor cuidado. Anos subindo e descendo. Havia sempre uma cena mítica. Aqueles degraus pareciam uma grande montanha a ser escalada por alguns. Invariavelmente questões indiscutíveis paravam na mesa da sala de casa. E observar as pessoas subindo cansadas, não por conta dos degraus, mas por causa da bagagem que carregavam nas costas, me deixava um tanto quanto apreensivo e curioso. Eu oferecia um sorriso, um espaço no sofá quase furado e um café quente. As vezes ficava preso no quarto lendo ou fazendo algo na cozinha afim de deixa-los a vontade. Raramente participava. Permanecia quando estava inteirado do assunto ou quando eu era o assunto. A casa era pequena, feia e desajeitada. Mas totalmente aconchegante. Não só pra mim que vivera a maior parte da vida ali. Era consenso. As paredes estavam rachadas por conta de uma reforma da pior qualidade. Tinta descascada e muita  umidade. Forro de madeira com alguns buracos e empretecido da água da chuva. Conhecíamos as goteiras precisamente. Só nos faltou dar-lhes nome. Lembro quando criança do pé de ameixa que ficava encostado a varanda. Passava horas escalando seus galhos, mastigando a fruta e observando o movimento nas ruas periféricas. A vista dava também para pequenas chácaras no meio do nada. Cavalos, vacas, plantações de qualquer coisa. Típico de interior. Mas há muito o cheiro de barro e terra batida haviam sido substituídos pelo do asfalto fresco. Eu adorava aquele cheiro de asfalto quente quando recebia as chuvas de verão.
Uma das cenas mais vívidas na minha mente foi quando meu pai me disse uma vez “tem alguém te chamando lá embaixo. Não sei quem é”. Estava garoando e eu estava mal humorado. Desci a contragosto e não tinha ninguém, só uma bicicleta debaixo do toldo. Fiquei com raiva. “Quem era o folgado que tinha deixado aquilo ali?”. Subi correndo as escadas resmungando “pai, não tem ninguém lá. Só uma bicicleta encostada. De quem é?”. “É sua filho”. A alegria daquele dia não cabe em palavras. A indignação transformou-se num arroubo de sorrisos. Minha primeira bicicleta que me rendeu grandes façanhas e confusões ao longo da adolescência.
Em casa, as velhas cadeiras não muito firmes e a mesa de madeira acolheram centenas de pessoas pesadas de alma e espírito. Eram confissões, traições, conspirações. Algumas pessoas só iam para almoçar. O tempero da comida de mamãe era famoso. Assistiam com a gente o futebol nas tardes de Domingo e iam embora sem falar muita coisa. Felizes pelo momento familiar dentro daquele cubículo caindo aos pedaços. Momentos esses raros na vida de alguns. Vi coisas acontecer debaixo daquele teto que muita gente duvidaria. Anjos e demônios. Mas incontáveis as vezes que pessoas sobrecarregadas subiam aquelas escadas as desciam em plena paz, rindo naquele último abraço antes dos 21 degraus abaixo. Era hora de prender o cachorro novamente que latia sem parar para qualquer um que não fosse da família.
Lembro de uma cena curiosa. Isso foi há uns poucos anos. Estavamos todos tomando café na sala apertada junto com um amigo da família. Uma conversa leve, brincadeiras e piadas eram o ambiente. O amigo, um empresário muito bem sucedido vira pro meu pai e diz “você sabe que devo muito a você, né?”. Meu pai ficou sem entender muito bem. Então ele contou a história de quando dividiram uma pequena casa e em determinado período não tinha como ajudar no aluguel nem as despesas básicas. Meu pai teria dito “eu ganho pouco. Mas se esse pouco dá pra mim, dará pra nós”. Desde então, de tempos em tempos, os dois sempre param para tomar um café e conversar e compartilhar a vida. Aquela foi uma das raras vezes que vi gratidão subir aquelas escadas. A humanidade tem dificuldade de expressar gratidão. As vezes nos comportamos como se todas as pessoas a quem fossemos gratos soubessem disso sem nunca termos dito uma palavra.
São partículas de histórias da qual fui recordando e analisando esses dias. Mamãe morreu. Nos mudamos. Me mudei. Mudei. E por esses tempos andei pensando sobre a falta que as vezes sinto de um lugar pra chamar de lar. Onde seria esse lugar? Há um tempo reencontrei um amigo de infância e conversamos sobre as presepadas que fazíamos e das longas conversas que tinhamos durante a madrugada na casa um do outro. Essa conversa me fez lembrar de uma frase atribuída ao dramaturgo norueguês Henrik Ibsen; “O lar é onde o coração do homem cria raízes”. E de repente a lampada se acendeu. O meu lar está na memória. Mas o melhor de tudo é que, por conta disso, entendi que posso levar aquela velha casa caindo aos pedaços a qualquer lugar onde eu repouse minha cabeça. E é sempre bom poder colocar as alegrias e frustrações dentro daquele meu velho quarto embolorado.

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