Eu Sei Que É Maluquice

Quando professor nos EUA, Rubem Alves em uma conversa com seus alunos por conta da sua linguagem poética, era cobrado para que explicasse e explanasse sobre tudo o que dizia. Nessa mesma noite sonhou com um ambiente cheio de montanhas e precipícios. Havia um trator que retirava terra da montanha afim de preencher o precipício.
Ao acordar correu para a biblioteca afim de procurar sobre a etimologia das palavras “Explicar” e Explanar”, pois sabia que era sobre isso que o sonho remetia. Descobriu que a palavra “explanar” tinha como um dos significados principais “tornar plano”. Já “explicar” levava a “alisar”.

Quando li essa história, fiquei incomodado em me reconhecer em muitas atitudes como o trator no sonho. Enquanto o convite da vida era subir a montanha a fim de contemplar todo o vale, muitas vezes me vi gastando energia destruindo-a para aplanar as incertezas e assim ter pleno controle sobre tudo a minha volta – por medo da altura, da profundidade, do sol a pino na montanha e da escuridão do precipício.

Estar no monte é estar exposto. Estar no precipício põe a prova o objeto da fé -se realmente cremos do que dizemos crer.

Muito mais do que viver nessa tensão das montanhas e precipícios, a missão da vida, creio eu, está relacionado diretamente com o próximo. Não se vive só. E em tempos de selfie levar a vida em direção ao outro, a fim de fazer parte da escalada na montanha e do não cair no abismo, soa como pura maluquice utópica. Simplesmente porque, muitas vezes, não há uma explicação ou explanação razoável para tal. No máximo uma poesia que poucos entenderão. E partindo do principio que poesia é como um bom vinho, que nenhuma explicação lhe fará sentir o seu sabor de forma plena, se embebedar da vida na tensão das convicções e incertezas, nos fará conhecer juntos o caminho das pedras.

Isso me faz lembrar da primeira vez que ouvi Deus claramente sobre o sentido da vida (chamado) no trecho que da nome ao livro “O Apanhador no Campo de Centeio”.
“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

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