Único

Acordou bem cedo. E antes mesmo de escovar os dentes e lavar rosto, correu direto para espelho. Ainda meio sonolento, abriu um belo sorriso amarelo. Disse a si mesmo com a voz rouca da manhã; “hoje você perdeu”. Seguiu a passos lentos para cozinha esquentar o café de ontem. Parou olhando a janela tentando distinguir o som de algum pássaro competindo com as buzinas do trânsito caótico que fazia questão de passar todos os dias pela sua porta.

Pegou a primeira camisa que viu, a calça jogada no canto e o tênis com as meias espalhadas pelo quarto. Conferiu se o livro da semana estava na mochila e partiu para mais um dia ordinário. Aprendera há pouco que o tal “ser especial” era um local no limbo um tanto quanto inacessível. E pior, não tinha nem a quem perguntar qual o caminho das pedras.
A leitura no empurra-empurra do ônibus falava, paradoxalmente, sobre silêncio, meditação, percepção e contemplação, misturada as dúvidas de um jovem que por muito tempo andou por atalhos, nunca encontrando realmente um caminho que o levasse, não necessariamente a um lugar seguro, mas há um local qualquer. Mesmo que no fim dissesse “eu não pertenço a esse lugar” e voltasse para casa.
Inclusive, uma palavra que realmente parece perder o sentido na transição para a vida adulta é justamente essa – casa. Mais do que nunca a casa do seu pai (ou mãe) é a casa do seu pai (ou mãe). Para quem está na estrada, casa é todo ou nenhum lugar. E se você mora sozinho, está sempre na iminência de voltar para uma casa que provavelmente não existe mais ou na espera de chamar algum outro espaço qualquer de “lá em casa”. Menos de lar.
No meio da divagação, ouve a própria voz da manhã – “hoje você perdeu” – e o trajeto segue seu curso até ser interrompido por alguma outra observação miraculosa que cura as feridas não expostas de uma segunda feira vagarosa, atrapalhada, as vezes sem sentido, mas sempre eminente.
Saudades do tempo em que esperava o carteiro chegar. Era uma demora validada pelas letras escritas a punho por alguém. Talvez seja dessa falta que sofra. De escrever a sangue os seus dias para que alguém pudesse ler. Ser compensado pelas esperas da vida.
No fim, só mais um intervalo de divagações. Novamente, “hoje você perdeu”. Quem tivesse o dom de ler pensamentos provavelmente nada entenderia. “Quem diz ‘hoje você perdeu’ para si mesmo e conserva tanta fé e esperança num dia cotidiano?”. Tinha a resposta na ponta da língua. Não era só sua história que estava sendo contada naquele momento. O dia acordara com olhos abrindo para vida e outros se fechando para morte. Tinha a melhor certeza de todas; não era único. Aprendera isso na observação, no carinho recebido e ofertado e, principalmente, nos empurrões involuntários do ônibus lotado. O ordinário lhe ensinara a perder-se de si mesmo afim de achar-se no outro. No amor e no ódio. Na alegria e tristeza. No frio e no calor.
A propósito, a temperatura de sua alma lhe clamava mais um café. Um momento de gratidão a Deus e dar bom dia até a quem gostaria de evitar. Não era único.
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