Surto

Surtos são acúmulos. E em maior ou menor escala, todos nós já tivemos os nossos dos mais diferentes jeitos.
Um surto pode gerar um bom livro como, por exemplo, boa parte da obra de Thoreau e tantos outros gênios da literatura mundial, até assassinatos em massa. Vide casos de massacres escolares, principalmente, nos EUA. Um surto pode culminar em uma atitude impulsiva ou criar meticulosamente um plano a longo prazo. Exemplos não faltam. O que nos parece falha de caráter pode ser acumulo, onde simplesmente o caráter é um valor neutro na equação. Somos totalmente possuídos.
Normalmente somos ávidos em julgar – até tentar ajudar – o processo de surto do outro, mas quase sempre sem levar em conta seu acúmulo. Isso tende a provocar mais estragos. Por exemplo, frente a morte, uma das frases mais irritantes de se ouvir é “força, cara”. Quando, na verdade, a única coisa que você quer é parar de fazer força, desabar, esperando que alguém ou até mesmo o chão te suporte naquele momento. Quando a solidão te abraça por completo, não faltam frases como “larga de frescura”, “Sai dessa”, e tantas outras pérolas. Num mundo onde tudo tem um preço, até surtos criativos causam seus estragos. Quando ficamos obcecados por uma ideia, a criação nos coloca entre o desapego e as, ditas, oportunidades de crescimento. E pra quem está dentro não é uma decisão tão matemática assim. Quem já passou por isso sabe exatamente do que estou falando.
A maioria de nós tem as suas válvulas de escape para aliviar a pressão. Em determinados momentos gosto de longas caminhadas, de tomar banho de chuva, de sentar em um bar e tomar uma cerveja com algum amigo, vomitar tudo, simplesmente fingir estar numa realidade alternativa ou escrever coisas que façam sentido há um número bem restrito de pessoas. O ponto é quando essas válvulas não estão disponíveis no momento que mais precisamos. Tenho certeza que você já deve ter visto alguém, “do nada”, chorar descontroladamente em ambiente de trabalho, no transporte público, em algum restaurante, ou ambiente comum pouco provável para esse tipo de exposição. Acho pouco possível também você ter olhado essa situação e pensado “coitado(a). Provável que sua válvula de escape não esteja disponível, não aguentou a pressão e simplesmente desaguou toda a angustia”. Com os olhos e pensamentos, a pá de cal é nossa.
A vida por si só é por demais acúmulo. São idas e vindas. Abraços e despedidas. Amor e ódio. Conversas. Solidão. Muita alegria. Muita dor.
Mas a questão é que, como disse John Donne, nenhum um homem é uma ilha. Que mesmo nos perdendo de nós mesmos, nesse surto de acumulo de vazio, podemos nos achar e nos reconhecer no outro. Não sou você e vice versa, mas juntos nós somos.
Talvez devêssemos parar de perceber o surto do próximo através de um reflexo no espelho e fingir preocupação com palavras distantes, como se fossem personagens de uma história mediana de ficção.
Talvez devêssemos fortalecer os braços para que o outro possa desabar em paz. Sem que precise se espalhar pelas eiras desse mundo.
Talvez devêssemos, nos intervalos de nossos acúmulos, ter surtos de compaixão.
Talvez devêssemos nos oferecer mais, a despeito de quem nos receba ou ignore.
E quando o acumulo vier deixemos de ser idólatra, sacrificando nosso surto ao nada. Mas tendo a minima abertura de compartilhamento não só de textos, links, downloads, músicas e afins, mas de nós mesmos.
Talvez devêssemos nos suportar mais. Uma milha mais. Pra que não nos tornemos pequenas ilhas conectadas em offline.
Talvez um pouco mais de paradoxo e menos contradição. Um pouco mais de ironia e menos sarcasmo. Um pouco mais de amor e menos paixão. Um pouco mais de alguém e menos de mim.
A vida é um surto criativo de Deus que, triuno, em comunidade se dividiu na história e meta-história afim de suportar tudo e todos. Você pode simplesmente ignorar essa linha e reproduzir esse texto sem esse trecho. Mas não há tão grande felicidade pra Ele quanto um surto compartilhado.
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s