Cristianismo, Sociedade e Revolução

Gastei um tempo redigindo isso, mas acho que dá luz a algumas questões que estão em pauta. O texto é um trecho da introdução do livro “Cristianismo, Sociedade e Revolução” do Paul-Eugène Charbonneau escrito em 1965.
——-
Com efeito, é fato notório que toda a América Latina se acha em plena ebulição. O proletariado, tendo adquirido consciência dos problemas sócio-econômicos dos quais se encontrara outrora marginalizado, exige profundas transformações das estruturas, graças à forte pressão que exerce sobre o dispositivo politico e a classe dirigente. Nos meios sindicais e entre os universitários faz-se sentir fortemente a presença comunista. Os militantes marxistas exploram quanto podem um estado de coisas que constitui exatamente o campo ideal para a sua pregação. Por toda parte, ouvem-se com insistência os temas clássicos de nacionalismo, imperialismo norte americano, ditadura econômica, plutocracia, nacionalização, autodeterminação, força sindical, reformas de estruturas e, de modo especial, reforma agrária. […]
Diante desse vigor, inegavelmente perigoso de um comunismo ainda adolescente – logo, em pleno crescimento – ergueu-se uma força de reação não menos perigosa. Efetivamente, contra a demagogia de esquerda, reage-se com a demagogia de direita. Consideram-se todos esses temas, explorados pelos comunistas como fatalmente “marxistizados”, sem levar-se em conta a realidade que exprimem. Aquela terminologia será, pois, revestida com a pele do Lobo, e como não há desejo de entrega-se a este, lança-se mão de todas as armas contra o arsenal em que ele se abastece. Dai recusar-se sistematicamente – e violentamente – tudo o que pode ser chamado de reforma, considerando-se marxistas todos os que reclamam as transformações necessárias e impostas pela justiça. Cria-se, em suma, uma falsa alternativa com vistas a proteger-se contra qualquer infiltração: uma pessoa, diz-se, está a favor do status quo ou contra ele. No primeiro caso, é anti comunista; no outro, comunista ou “comunizante”. […]
O resultado de um tal processo de radicalização é desenvolver-se um estado de espírito em que a suspeita substitui a prova e a calúnia basta para a acusação. Pretende-se, a todo custo e sem mais formalidades, classificar todas as pessoas nessas categorias pré-fabricadas. Chega-se assim, muitíssimas vezes, a descobrir comunismo onde não se trata senão de justiça social.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s