Passageiros

O velho seguiu apressado tentando acompanhar os passos da esposa. Uma constante procissão de pessoas subindo e descendo as escadas do Metrô. Uns voltando pra casa, outros indo para o trabalho, escola, faculdade ou qualquer outro compromisso. A não ser por alguns retardatários, principalmente os perdidos no seu sério relacionamento com o celular, todos parecem estar extremamente atrasados. Alguns ao telefone contam suas histórias “o trem quebrou”. “estou parado no trânsito”, “teve manifestação perto de casa hoje cedo”, “perdi a hora”. Inclusive, lembro de um dia que liguei avisando que tinha “perdido a hora”. Um antigo chefe respondeu que das grandes responsabilidades da vida, a maior delas era, na verdade, achar essas horas. “Eu sei que você vai dar conta do serviço mesmo chegando atrasado. Mas talvez tenha perdido a oportunidade de ler algum grande livro nessas horas que perdeu. E eu sei o que isso significa pra você”. Desde então aprendi que não é o dia que deve ter 48 horas. Isso, automaticamente, deixaria os dias da minha vida pela metade, ao contrário do que imaginava. Era eu quem deveria ter disposição de organizar e aproveitar muito bem as 24 horas que me são dadas. Mas hoje, desacelerei. Acompanhei o casal de velhos. A senhora na frente e o senhor atrás tentando alcança-la. Ao que ela olha para os lados e percebe a ausência do marido. Olha pra trás e o percebe ofegante. Sem cerimônia retruca “Ande velho. Segure minha mão e não enfarte. Senão, não te beijo”.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s