Desterro

A correspondência chegou. E apesar de estar na sua caixa de correio, não possuía destinatário ou remetente. Somente palavras soltas. Passou os olhos pela carta e decidiu ler mais tarde. Um outro dia, talvez. Haviam muitas palavras para se esquivar e não estava preparado para os golpes que receberia.
Ouvira há tempos; “não se apresse. A escuridão demora um tempo pra clarear. Logo você encontra a porta”.
Se sentia incomodado. Não sabia exatamente quem enviara a missiva. Mas sentia certa familiaridade. Tinha impressão de conhecer o conteúdo. A despeito do que estivesse ali, sabia, era culpado. Pela presença ou pela ausência.
Disse o poeta; “há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer”. Mas ele dormia até demais. Estava saciado de si próprio.
Ouvira tempos atrás “O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo”.
No fim, acumulara dores desde que decidira saldar todas as dividas da alma. A notícia havia corrido. Era hora de exumar os corpos das valas de indigentes, dar-lhes nomes e um funeral. Sofrer a dor do luto e deixar ir. A tristeza estava de malas prontas.

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