O Espelho

As moedas tintilavam no bolso como que cantando uma velha canção. Um hino de vagabundos, um amor perdido, cerveja barata e a companhia nos balcões. Andava cambaleante pelo centro, antes pelo frio e as rajadas de vento do que pelo álcool que já não mais aquecia seu corpo. Ainda sim gostava da passagem do Outono para o Inverno. Aprendera a lidar com a friaca. Tornaram-se amigos. Ajudava-o a clarear as muitas idéias que tinha. Passava dias conversando consigo mesmo num diálogo frenético, ignorado pelas tantas pessoas que circulavam por ali todos os dias. Era só mais um pobre coitado precisando de um cobertor e um prato de sopa. Mas logo a noite chegaria, uma Kombi estacionaria rente a praça e as suas necessidades estariam saciadas. Pelo menos era esse o senso comum. Muito diferente do que realmente sentia ou precisava. Estava em êxtase. Outro mundo. Estava em si. Plenamente consciente. Aprendera que os desertos são os mais perfeitos espelhos.

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