Histórias Reais, Seres Imaginários

1Mas tinha cuidado com o par de sapatos que não tinha. Seguia firme. Ao que o recado pegou-o de surpresa.
– Mas porque corre tanto moleque?
– Espera… eu… respirar… velho. Há… um… recado… a te dar.

– Pois abra boca ligeiro, porque estou curioso, não com o recado, mas quem há de me conhecer e se importar, a ponto de pagar um mensageiro como você, que mal consegue falar.
– O único culpado de eu estar cansado são as duras palavras que tenho que lhe entregar. “Volte pra casa ligeiro. De longe não aprendi a te amar. Volte pra casa de preto, pois creio que irás enlutar. Volte pra casa sem meios, seu cheiro pra eternidade eu quero levar”.
De espanto, o velho ficara mais branco. De sobressalto empurrou o menino pro lado e, levanto poeira na estrada, voltou o caminho percorrido sem se importar com o sol, a fome e a sede. Nunca mais a iria deixar. Saíra de casa sem eira e nem beira. Já não se sentia mais digno de si e de sua bela velha mulher. Acabara-se a farinha, a água e o pão. Pegou a força que pouco lhe restava à enfrentar o sol quente e as mazelas do grande sertão. Não sabia o que buscar e nem onde. Não haveria de importar. Ninguém se importava, mas acharia. No fim, retornou de mãos abanando com desespero nos olhos fundos. Era preciso chegar de qualquer jeito, achar o corpo ainda quente da mulher e se aconchegar. Ela sabia o que aconteceria e a certeza na alma começou a pesar. Receberiam visita ilustre. “Ela tem que esperar”, pensou consigo mesmo. Acelerou o passo. O corpo ganhava vigor ao perceber as últimas curvas da estrada. Chegou.
– Mor, me espere por favor.
– Venha cá querido. A hora chegou.
Seco e sem lágrimas ao seu lado deitou. Na hora todas as forças das pernas e respiração do peito latente, cessaram. Simplesmente olhavam-se, sem força para qualquer carinho. Só o abraço cumprido dos braços que mais descansavam do que qualquer outra coisa. Não sentiam medo. Aprenderam a enfretar a vida de peito aberto, sem blindar o coração. Só queriam estar juntos. Ficarem juntos. Irem juntos. E se foram.
Ninguém registrou a entrada da visita. A não ser as poucas aves do sertão. Ninguém reparou na saída dos matutos famintos. Não só de fome. Mas, por agora, eternamente saciados.
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