Enquanto Você Espera Amar, O Amor

[Para ouvir e ler!]


Nunca te disseram que o amor é só uma espera?
Que o amor é um banco esquecido numa praça de outubro, cheia de pombos e velhos?

Um bagaço abandonado à espera dos cães e dos lixeiros?
Que somos todos nós.Um barco cujo cais fica em todo lugar e onde nunca é fácil de achar?
Porque o amor já está.
É esta paciência. Esse esperar.
Nós é que nunca estamos.Nunca te disseram que há mais amor numa gota de desespero que nos dentes de quem sorri?
Porque o amor não é uma ponte, nem uma travessia.
Mas uma âncora e um buraco.
É uma curva que leva sempre à mesma curva.Que demora feito noite de desacordado.
Feito frio de abandonado.
É esta febre que não frita nem fere.
E que não passa.
O amor é uma fila.
E nós a senha que não chega.
Nunca a nossa hora.

Porque há mais gente para ser atendida do que gente para ser deixada.
Porque há mais chão para correr do que passeios para sentar.
E queremos ir, quando temos que ficar.

Assim nasce o amor.
Nasce dessa porta sem chave.
Dessa pressa sem rumo, cheia de muro.
Por isso ficamos na janela vigiando o dia e os outros.
Esperando o convite para a nossa festa.
Que nunca organizamos.

Por nos enganarmos que o amor é esta aflita esperança de alegria,
Achamos que haverá um tempo para que o amor seja, enfim, a gente.
Mas o amor é apenas um jeito de não lembrar,
E ao mesmo tempo de nunca nos esquecermos.

O amor é essa tristeza.
Porque é uma mentira.
Que a gente conta a si mesmo para não se machucar.
Ou para tampar com esparadrapo esse buraco no olho e no joelho.

Porque o amor é um pedaço de pano e uma venda.
Ora a nos enforcar. Ora a nos cegar.
Mercúrio de ferida.
Um ponto de ônibus da rua sem saída.

… nosso breve jeito de resistir.
… nossa boia para não nos abandonar.

O amor é a coisa mais feia que há.
Mais que a doença ou que a traição.
E porque somos crentes e tolos, acreditamos no amor.
Porque para os velhos há as muletas.
E para os pombos as migalhas.

Por querer demais o amor, esquecemos que quando somos atendidos, ele é adiado.
Quando a fila anda, e as coisas chegam, o amor, enfim, vai embora.

Por isso não se pode amar.
Porque quando o amor já é,
Nós ainda não.
E apenas somos quando ele nos falta.
E quando ele já não nos falta estamos mortos.
Igual a essa gente feliz que não pensa em nada.
Porque não lhes falta nada.

A felicidade é exatamente estar livre para não precisar amar.
E o amor é exatamente a plenitude de não ser livre.

Não temos o amor.
Porque só ele nos tem.
Mas o amor não é a falta.
O amor é o que nos faz aguentá-la.
O amor é, enfim, esta saudade de um nós que nunca conheceremos.

E se com amor a vida é este eterno e amargo aguardar.
Sem ele, a vida seria como este nós que tanto sonhamos:
Impossível.

Retirado de ORUMINANTE
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