Não é estupro se for na Globo, mas no Metrô é…

Pra quem achou que o texto “Não é estupro se for na globo” era muito forçado…

Jovem assediada no metrô ataca quadro do ‘Zorra Total’

X. nunca conseguiu dar risada de um quadro do humorístico “Zorra Total” (TV Globo) que se passa num vagão do metrô. “Sempre achei um desrespeito”, diz a jovem de 21 anos, aparência de 15.Mas, agora, X. não pode nem sequer ver as personagens “Valéria” e “Janete”. Ela acusa um advogado de 46 anos de tê-la atacado sexualmente em um trem no metrô, às 18h40 do último dia 14.
“A gente que trabalha sabe o empurra-empurra que é pegar o metrô na ida e na volta, e ainda por cima no horário de pico. Aí, eles põem essa brincadeira ridícula. Só quem já sentiu na pele a humilhação de ter um sujeito se esfregando contra o seu corpo sabe a tristeza que é. Tem gente que acha engraçado, mas eu, se eu pudesse, tirava [o quadro] do ar”, disse X.Baixinha (1,59 metro) e magricela, resultado da dieta sem carne que segue desde criança, quando assistiu a um documentário sobre matadouros, X. saía do trabalho no centro de São Paulo, depois de uma jornada de nove horas, rumo à sua casa, em Itaquera (zona leste). Trajava calça jeans e blusa de mangas compridas.Nesse trajeto, a chamada Linha Vermelha do metrô apresenta densidade máxima (10,9 pessoas por metro quadrado no horário de pico). É a mais congestionada do sistema paulistano.

“ELE VINHA”
Segundo X., o assédio iniciou-se tão logo ela entrou no vagão lotado, o advogado encostando-se em seu corpo:
“Eu cheguei a pensar que fossem outras pessoas que estivessem empurrando. Eu tentava me esquivar e ele vinha. Eu saía e ele vinha. Toda hora. Eu tinha ainda a preocupação com a bolsa, para não roubarem. Então, uma hora, não tive mais para onde ir, porque ele colocou as mãos nos ferros de cima e me apertou com o corpo.”Um rapaz de 24 anos, comerciário, que estava no mesmo vagão, flagrou o instante em que X. desmaiou: “Ao olhar para trás, ela viu o pênis do advogado fora da braguilha da calça do terno”.

GRITOS NA ESTAÇÃO
“Eu fiquei travada, eu parei, eu não tive reação. Sei lá o que estava passando pela minha cabeça.” Assim a moça descreveu a espécie de blecaute que sofreu.Foi o jovem comerciário quem segurou as portas do vagão na estação Belém, para que X. fosse retirada, e que, aos gritos, chamou a segurança do metrô, que impediu o advogado de seguir viagem tranquilamente.”O homem alto e engravatado saiu do trem ainda com tudo para fora, o cinto solto e a braguilha aberta”, disse o rapaz na Delpom -Delegacia de Polícia do Metrô.X., que pretende tornar-se psicóloga, só chorava. “Por ele ter saído do jeito que saiu e por mim, porque eu sou mulher. Eu nunca imaginei que fosse acontecer isso comigo, um monte de gente perto. Muita vergonha, nossa.”

INADEQUADO
No final de 2004, o Metrô realizou uma pesquisa com usuários, que entre outros quesitos, avaliou as ações da companhia para prevenir o assédio sexual nos trens.Para 21%, nada era feito -serviço considerado inaceitável-; 45% disseram que a companhia só agia quando a vítima conseguia informar um funcionário -nível considerado inadequado.Sete anos depois, o Metrô diz não dispor de dados atualizados sobre níveis de satisfação (ou insatisfação) em relação à prevenção de assédio.

Em nota, afirma que, de janeiro a setembro de 2011, foram registradas na Delpom dez casos de ato obsceno e 43 casos de importunação. “No mesmo período, o Metrô transportou 807 milhões de passageiros.”Para Marisa Mendes, 53, do sindicato dos metroviários, o que há é uma “imensa subnotificação, porque as mulheres molestadas se sentem humilhadas e desassistidas demais”. Segundo a sindicalista, os ataques decorrem da superlotação dos trens e da falta de investimento em segurança, que poderia intimidar os assediadores.Marisa responsabiliza também o que chama de “banalização do assédio, propiciada por um tipo de humorismo que faz graça com a dor das mulheres”. Refere-se ao quadro do “Zorra Total”.X. continua pegando o metrô para ir e voltar para o trabalho. Não mais do mesmo jeito, contudo: “Nossa, eu estou parecendo louca. Fico olhando para trás o tempo todo. Tenho cisma de alguém atrás de mim. Se tem um homem atrás de mim, eu saio. Eu não consigo evitar”.X. vai marcar uma consulta com a psicóloga da empresa em que trabalha.

OUTRO LADO

Procurada pela reportagem, a Central Globo de Comunicação não quis responder às críticas feitas ao quadro “Metrô”, do programa “Zorra Total”, e informou que “não vai alterar em nada” o seu conteúdo.

O advogado acusado de ataque sexual, Walter Dias Cordeiro Junior, 46, não quis falar com a reportagem, que o procurou no apartamento em que vive, no bairro da Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo.

Pelo interfone da portaria do condomínio, ele disse que tinha sido “aconselhado por seus advogados a não se pronunciar à imprensa”. Pediu, entretanto: “Escreva apenas que eu afirmo minha inocência”.

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Publicado no jornal Folha de São Paulo de 23 de Outubro de 2011, baseado em casos relatados no blog Amigos do Presidente Lula.

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2 pensamentos sobre “Não é estupro se for na Globo, mas no Metrô é…

  1. Fiquei consternada com essa história. Primeiro por ser mulher e saber o q é ter q se proteger desse tipo de assédio que acontece não apenas no metrô, e em segundo por perceber o quanto eu posso me contradizer… não me agrada humor do tipo feito no Zorra Total, mas confesso que quando tem alguem assistindo e essa dupla de humoristas aparece eu acabo assistindo e achando graça dos trejeitos dos personagens embora realmente o humor ali é extraido de situações humilhantes.
    Paulo sabia das coisas… “miserável homem (mulher) que sou, quem me livrará do corpo desta morte”.
    Que eu tome vergonha na cara à partir de hoje, e Deus tenha misericordia.

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