As Cartas Que Nunca Escrevi

Velho ditado aquele que diz que “de boas intenções, o inferno está cheio”. Demorei uns 16 anos para dizer, conscientemente, que amava meus pais. O sentimento sempre existiu. Meu pai e minha mãe são os grandes heróis da minha vida, sem dúvida alguma, mas não conseguia expressar isso de forma clara, o que só aconteceu depois da morte de um tio. quando o vi no caixão, e me imaginei enterrando meus pais sem dizer tudo o que queria. Esse é apenas um exemplo dentre vários parecidos na minha vida. Às vezes paro, meio nostálgico, e dói saber que para muitas pessoas, que foram e são extremamente importantes para mim, nunca mais terei a oportunidade de demonstrar o que sinto.

Fico pensando também no quanto Deus nos ama, e como parece difícil entender isso. É muito fácil dizermos que amamos a Deus. Cantamos músicas e mais músicas sobre nosso amor por Ele, mas será que realmente nos sentimos amados? Ou será algo como Woody Allen escreveu: “confesso que não gosto de contrapor as pessoas e os pensamentos, porque acredito na individualidade perceptiva de cada um, mesmo em se tratando de Deus, quando cada um sente, vê e segue o que lhe supre a carência deixada…”? Esse amor (ou essa forma de achar que sentimos o amor de Deus) seria o tal “ópio do povo”? Quando tal tipo de pensamento bate muito forte em mim, coloco uma boa música para ouvir e saio a caminhar, de preferência à noite, e Ele toda vez arruma uma maneira bem criativa de me mostrar explicitamente Seu amor.

Mas queria focar em outra situação. Acho que a frase de Carl Rogers vem a calhar: “é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa”. Não há sensação pior que perder um grande amor (sim, estou falando de relacionamento amoroso) por pura incompetência. Passei por isso, e a dor e o vazio que ficam são indescritíveis. Por mais que queira compartilhar com alguém, ninguém nunca entenderá o grau de intensidade, ou vai achar que é super valorização ou simplesmente frescura. E se tivesse mandado aquelas flores quando pensei? E se a tivesse levado naquele teatro chato, somente para estar com ela? E se tivesse escrito aquela carta a punho, mesmo falando com ela todos os dias? E se…? O mais legal é que muita gente vai rir ao ler esse post, principalmente meus amigos.São raras as pessoas que exteriorizam seus sentimentos e suas decepções amorosas, apesar de ser um dos fatores que mais transformam a vida do ser humano. Quem é que jamais viu um amigo se afastar por causa de um relacionamento? As roupas mudam, o gosto musical muda, a perspectiva de vida muda, a personalidade se adapta, e outras mudanças profundas acontecem. É até engraçado ver o processo.

Dentro do cristianismo, amor é assunto em voga. Mas pouco se fala dos corações, a não ser que “devemos guardá-lo”, embora relacionamentos impliquem riscos, inclusive. Riscos altos que devem ser ponderados, sim, mas que, muitas vezes, devem ser enfrentados. Diferenças sempre haverão, mas a capacidade de lidar com elas é que vai fazer a verdadeira diferença. A questão é: ouse; e náo hesite em ser piegas. Isso pode “garantir” seu casamento com a pessoa amada. E se não der certo, que não seja por falta de demonstrar seus sentimentos. A decepção faz parte da vida; porém, em tempos de “redes sociais”, um papel em branco e uma caneta bic podem mudar tudo.

Obs.: As frases de Woody Allen e Carl Rogers, furtei do Facebook da Tatá (‘creative commons’).

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5 pensamentos sobre “As Cartas Que Nunca Escrevi

  1. Ah, amado…
    Parei pra pensar agoora…
    Obrigada por conseguir expressar em palavras coisas que eu sinto…

    Pazzzz….

    vou até dormir depois dessa…

  2. Tanto quanto ao da Kel esta semana, o seu post é digno de CRTL+C – CTRL+V e farei isso.

    E aqueles que derem risada disso… são os chamados fracos e superfluos, pq nada tem pra rir de um post desse.

    Amo suas postagens.
    =*

  3. me lembrou uma música da Zelia Duncan que gosto muito:

    JURA SECRETA

    Só uma coisa me entristece
    O beijo de amor que não roubei
    A jura secreta que não fiz
    A briga de amor que não causei
    Nada do que posso me alucina
    Tanto quanto o que não fiz
    Nada que quero me suprime
    De que por não saber ‘Ainda não quis’

    Só uma palavra me devora
    Aquela que meu coração não diz
    Sol que me cega
    O que me faz infeliz
    É o brilho do olhar
    Que não sofri.

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