Histórias Reais III – A Saga de Um Anjo nas Ruas

Sentei em um banco de concreto na praça. Fiquei olhando a rua e me lembrei da cena que tinha visto semanas antes. Um carro encostando, uma das menores da cracolandia descendo arrumando o sutiã e um velho gordo com uma cara nojenta de satisfação. Ela… 13 anos de idade, extremamente comunicativa, bonita e muito simpática. Mas fingiu que não me viu quando passou. O ódio passou por todo meu corpo.

Infelizmente, cena comum nas ruas da Vila Rubim, região central de Vitória/ES.

Estou de volta a São Paulo e não consigo parar de pensar nas noites a dentro em conversas que marcaram minha vida pra sempre. Não consigo parar de pensar em A. e o nosso último triste episódio.

Tínhamos marcado de almoçar com ela na base, mas quando fomos busca-la debaixo da ponte onde normalmente ficava, não conseguia parar em pé. Estava há tantos dias sem dormir por causa do crack que o cerébro estava apagando. Estava com uma marmitex na mão e comia como um bixo, sem a menor noção do que estava fazendo. Não nos reconheceu. Ajudamos ela a comer para que não engasgasse, arrumamos um papelão limpo, deitamos ela e ficamos olhando com lágrima nos olhos ela dormir quase que imediatamente. Sabia que ela acordaria somente no outro dia.

Ficamos um mês no prático em Recife, que graças a ajuda de muitos amigos e desconhecidos, pude estar presente. Voltei muito animado e extremamente cansado. Estávamos há uns 15 dias da formatura.

Uma semana antes resolvemos, Lucas, Lili, Vinicius (um amigo de SP fundador da ONG Nossa Pátria que trabalha com crianças em comunidades carentes) e eu ir procurar por A., já que tínhamos ficado mais de um mês sem vê-la. Rodamos toda a região e os “picos” já bem conhecidos por nós, mas nada de acha-la. Ficamos extremamente tristes pelo fato de duas amigas nossas (mãe e filha) terem sido presas por tráfico. A mãe tinha sido liberada dias antes da cadeia e não durou muito nas ruas. É uma constatação dura, mas quem anda nas ruas de Vitória sabe que CRACK É COISA DE FAMÍLIA.

Já estávamos voltando embora quando olho em uma esquina e quem eu vejo parada? A. ficou nos olhando alguns segundos, reconheceu e veio nos abraçar. Aquela era a PRIMEIRA VEZ em que conversávamos com ela plenamente lúcida. Sem nada de crack. Estava mais magra. Mas continuava bonita. Comunicativa. Cheia de vida. Comentamos do episódio do almoço, mas naturalmente nem lembrava de nada. Perguntamos como estava e nos respondeu: “Não aguento mais isso aqui. Esse lugar ta acabando comigo. Não aguento mais a Ilha (do Principe, bairro vizinho a Vila Rubim). Quero sumir daqui pra qualquer lugar”. Perguntamos sobre sua família e pela primeira vez ela não havia fugido da conversa.

Dias antes, em um devocional, estávamos conversando sobre como poder ajudá-la de forma objetiva. Infelizmente as leis brasileiras não colaboram muito para tirar crianças da rua. Muita complicação. Muita burocracia. Decidimos que iríamos procurar sua família  e de alguma forma tentar assumir a tutela dela para poder encaminha-la, se quisesse. Mas ela nunca falava sobre a família. Sempre ficava taciturna quando perguntávamos alguma coisa. Mas dessa vez estava sendo diferente. Dissemos que tentaríamos de tudo para tira-la de lá, mas que precisávamos conhecer sua família e explicamos todas as implicações disso. Logo se prontificou a nos levar lá.

Nos contou que já tinha sido internada várias vezes, mas sempre fugia. Falou sobre algo que é bem real “Meu problema não é o Crack. Consigo ficar sem ele. Meu vício é a rua e isso está acabando comigo”.

Bom, conhecíamos vários canais para conseguir uma boa clínica. Pessoas compromissadas que poderíam ajuda-la. Dissemos que iriamos tentar providenciar tudo, mas ela teria que se comprometer em não fugir. Que a visitaríamos sempre, nem que fizessemos uma escala semana pra estar com ela. Mas ela logo jogou “Quero ver vocês cumprirem. A última vez que me disseram isso, a pessoa me deu tudo de bom. Foi me ver um final de semana e nunca mais voltou. Fiquei puta e fugi”.

Era uma responsabilidade e tanto que estávamos assumindo. Não se tratava de conseguir os recursos e tudo mais. Se tratava de relacionamento. Relações humanas que todos nós precisamos. E esse era um dos principais pontos na vida de A. Falta de relacionamentos saudáveis, verdadeiros e duradouros.

Convidamos ela para jantar conosco, mas não aceitou. Brinquei perguntando se ela estava com a agenda lotada de compromissos –  “Meu unico compromisso é com Deus, apesar de tudo”. Olhei para uma de suas várias tattoos de cadeia escrito “Jesus” na mão. Chamamos ela para nossa formatura e disse que iria sim.  Marcamos de buscá-la na sexta-feira por volta das 14:00. Nos despedimos e voltamos para base extremamente animados e cheio de planos. Queríamos que se sentisse em família na nossa formatura. Precisávamos fazer alguns contatos para poder ajuda-la.

Um dia antes da formatura Lucas, Lili e mais alguém que não lembro agora foram procura-la  para ver se estava tudo bem e se ela não havia esquecido do compromisso. Depois de algumas horas, voltaram apreensivos. Me disseram que estava com uns caras mais velho, que ela os viu, mas fingiu que não conhecia. Eles ficaram por perto para ver o que estava acontecendo. A. passou por eles e nem olhou de lado, como se tivesse os protegendo ou escondendo algo.

Não podíamos aceitar que não daria certo de novo dela passar o dia com a gente. Oramos e esperamos pela sexta-feira.

Estávamos todos na correria com as coisas da formatura. Fiquei boa parte da tarde editando um video. E novamente saiu Lucas e mais uma galera para buscar A. para passar a tarde na base e ficar para a formatura a noite.

Quando voltou, me olhou e disse “Ela caiu ontem. 157*…”. Os caras estranhos que estavam com ela foram todos presos acusados de formação de quadrilha e aliciamento de menor, no caso, de A.

Meu coração ficou pesado. Eu não sabia o que dizer. Sentado no sofá… e mais uma batalha perdida. Pelo que ficamos sabendo, ela ficaria, no mínimo 45 dias presa e depois, só Deus sabe.

A formatura rolou. O video deu pau. Passei boa parte da madrugada arrumando minha mala e de manhã peguei um avião para casa.

E aqui estou eu, três semanas depois pensando muito em como está A. Se Deus quiser, estarei em Vitória novamente em Outubro. Já na primeira semana pretendo juntar a galera pra procurar saber sobre ela.  Não acredito ser esse o final da história.Quero saber como está J. também, pois nunca mais o encontrei.

A única coisa que eu gostaria de cada de vocês que leram esse texto até o final é uma oração. Sobre o que? Deixa fluir do seu coração.

E no mais, que não nos permitamos ficar alheios a verdadeira realidade desse mundo e a nossa missão e obrigação de redenção dele através da mensagem da Cruz  e de nossa disposição em servir.

“Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados.” Provérbios 31:8,9

Art. 157* – Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:

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4 pensamentos sobre “Histórias Reais III – A Saga de Um Anjo nas Ruas

  1. sinto como se conhecesse A…
    eu tbm não paro de pensar nela e em tantos outros q vivem nessa mesma condição… no anonimato para a sociedade, mas com o consolo que não são anônimos para Jesus.
    vontade de cuidar de todos, e duro sentimento de incapacidade – q chega a doer o peito.
    que cada dia mais servos de DEUS estejam dispostos a pagar o preço e cumprir a missão de levar o evangelho a TODA a criatura!

  2. Meu irmão, que loucura! No bom sentido.
    Estou impactado pelos teu relatos.
    É algo que simplesmente foge completamente da minha realidade.
    Não conhecia o projeto Avalanche. Que demais!
    Glória a Deus por vocês.
    Orarei meu irmão.
    Que Jesus continue a encher o seu coração de coragem e disposição.
    Fique na paz.

  3. Rod! Suas palavras fazem meu coração se encher de vontade de fazer valer o amor de Deus! Que o Senhor possa proteger a sua vida e te guardar e te inspirar pra que pessoas, através de você, sejam transformadas pelo amor dEle. Amor que deve ser aceito e abraçado por cada criatura que Ele mesmo fez. É bom ver que hoje cristãos tem se preocupado em fazer mais do que caridade, mas sim em estar próximo, em dar afeto, em se relacionar. Jesus não era assistencialista! Pelo contrário, ele oferecia uma fonte que não tinha fim. Obrigada, Rod, por compartilhar essas experiência! Me sinto privilegiada por ler cada detalhe da vida de A. E que isso não seja o fim, mas o começo de nossas orações, de combates espirituais, de lutas de ideias pela vida daqueles que já nem tem mais esperança!

    E fica tranquilo! “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. I Cor 1:9.

  4. caraca Rod, quase choro lendo essas histórias da A. Concerteza estarei orando pela vida dela e para que esteja tudo bem. Quando chegar na base em outubro e a ver, posta aqui como ela está. Gostaria muito de saber!

    Fica na PAz /o

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